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Personalidade entrevistada: José Roberto Bernasconi

Engenheiro civil e advogado, José Roberto Bernasconi é diretor-presidente da Maubertec Engenharia e Projetos, empresa de consultoria, projetos e gerenciamento, que atua em diversos setores da infraestrutura.

Foi professor da POLI-USP entre 1970 e 1975, no Departamento de Estruturas e Fundações, das disciplinas “Construções de Concreto” e “Pontes e Grandes Estruturas”.

Teve e tem participação ativa em diversas entidades de classe, como CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), UPADI (União Pan-americana de Associações de Engenheiros) e Instituto de Engenharia de São Paulo, que presidiu nas gestões 1985-1987 e 1987-1989, e de quem recebeu o título de Eminente Engenheiro do Ano do Instituto de Engenharia de São Paulo, em 2010. De 2006 a 2009, foi presidente nacional do SINAENCO. Atualmente, é membro Conselho Superior da Indústria da Construção (Consic) da FIESP, e presidente do SINAENCO (Sindicato das Empresas de Arquitetura e Engenharia) São Paulo.

IBRACON – POR QUE VOCÊ ESCOLHEU CURSAR ENGENHARIA CIVIL?

BERNASCONI – Desde muito cedo, tinha certeza de que meu caminho seria engenharia pelo fato de ter facilidade e, sobretudo, gostar de matemática, física e química, disciplinas do chamado Científico no curso secundário. Sabia que queria ser engenheiro, mas fiquei um bom tempo em dúvida sobre a especialidade: entre a Engenharia Eletrônica, que, na época, tinha um grande apelo, e Engenharia Civil, que, ao lidar com as construções em geral, tornava-se mais próxima das pessoas. Ao entrar na Poli, em 61, optei por engenharia civil.

IBRACON – POR QUE ENGENHARIA DE ESTRUTURAS?

BERNASCONI – Nos dois primeiros anos do curso de engenharia civil, todas as especializações eram indiferenciadas – o chamado Curso Básico. Apenas no terceiro ano, começavam as especializações – estruturas, transportes, construção e hidráulica. Por ter gostado da disciplina de Resistência dos Materiais ministrada pelo professor Telêmaco Langendonck, me encantei com a engenharia estrutural. Os melhores alunos da disciplina de Resistência dos Materiais ministrada pelo professor Milton Maltone eram convidados a estagiar no escritório técnico Paulo Franco da Rocha. Eu fui convidado e fui trabalhar neste escritório no quarto ano. Na virada do quarto para o quinto ano, fui convidado para estagiar no escritório Figueiredo Ferraz, com o João Del Nero como meu preceptor.

IBRACON – DE 1970 A 1975, VOCÊ FOI PROFESSOR NO DEPARTAMENTO DE ESTRUTURAS E FUNDAÇÕES DA ESCOLA POLITÉCNICA DA USP. COMO FOI ESSA BREVE EXPERIÊNCIA NO SETOR ACADÊMICO?

BERNASCONI – Foi excelente! Eu só deixei de ser professor porque a USP, a partir de 75, estabeleceu exigências para que seus auxiliares de ensino (o que era meu caso!) fizessem mestrado e doutorado, obrigando-me a cursar disciplinas e defender teses em prazos determinados. Após ter passado pelo escritório Figueiredo Ferraz e ter me formado em 65, fui destacado pelo Del Nero para trabalhar com o Maurício Gertsenchtein, professor da disciplina sobre concreto na Poli, que tinha um escritório contratado pelo escritório Figueiredo Ferraz para fazer o Projeto da Nova Travessia da Ponte Pênsil (ligação São Vicente à Praia Grande, no litoral de São Paulo). No final deste trabalho, o Maurício me convidou para ficar no escritório, trabalhando com ele, dando-me a oportunidade de ser seu sócio. Quando a USP impôs a exigência de carreira acadêmica aos auxiliares de ensino, eu já era titular de um escritório de projetos estruturais que, em 69, tendo admitido novos sócios, passou a se chamar Maubertec Engenharia, sucessora do escritório do Maurício e do Bernasconi. Deste modo, a exigência da carreira acadêmica tornou-se incompatível com a minha disponibilidade de tempo e não pude continuar como professor. Quando saí, o titular da cadeira de Pontes e Grandes Estruturas, Décio Leal de Zagottis, prestou-me uma grande homenagem na forma de uma carta de despedida, que, para mim, é como se fosse um diploma. Foi com muita pena que eu saí! Queria poder ter continuado. Eu gostava de dar aulas e do convívio com os alunos.

Viaduto em João Pessoa, que passou por avaliação do Sinaenco em 2012

IBRACON – DEPOIS DE DÉCADAS DEDICADAS À ENGENHARIA CONSULTIVA, VOCÊ SE GRADUOU EM ADVOCACIA. POR QUE ESTA GUINADA TÃO RADICAL?

BERNASCONI – Não foi uma guinada, mas uma complementação. Eu sempre gostei de Direito e, ao longo da atividade empresarial, à medida que o escritório foi se desenvolvendo, eu fui me afastando da produção direta da engenharia e ficando com os trabalhos de coordenação do escritório. Como presidente da empresa, passei a tratar mais das questões estratégicas, afastando-me das decisões técnicas de engenharia. Por outro lado, o escritório deixou de ser apenas de projeto estrutural, incorporando arquitetura, instalações elétricas e hidráulicas e se transformando num escritório de consultoria de projetos de engenharia e gerenciamento. Senti que o curso de Direito seria uma boa complementação. Ingressei no curso em 2001 e me formei em 2005. Passei no exame da Ordem dos Advogados em 2006, obtendo a carteira OAB/SP 24856. Foi um curso lindo, que me encantou! Foi uma experiência interessante! Eu era o mais velho da minha turma, no curso noturno. Foi uma convivência muito legal. Foi um exercício interessante com os professores. O direito promove não apenas o raciocínio, mas uma prática da discussão, o que me enriqueceu pessoalmente. Eu não tenho conseguido exercer a atividade de advocacia, assumindo uma causa, sendo o patrono de alguém. Mas, do ponto de vista administrativo, o direito civil me ajuda bastante.

IBRACON – QUAL FOI SUA TRAJETÓRIA DENTRO DO SINAENCO?

BERNASCONI – A Maubertec foi uma das fundadoras do Sinaenco, em 1988. Como representante da empresa no Sindicato, estou desde sua fundação. Além disso, era presidente do Instituto de Engenharia de São Paulo, na gestão 1985-89, acompanhando e estimulando a criação do Sindicato, porque entendia que era importante para as empresas de engenharia. Na sua origem, o Sindicato chamava-se Sinenco – Sindicato das Empresas de Engenharia Consultiva. Um pouco mais à frente, o Sindicato incorporou as empresas de arquitetura, virando Sinaenco. Eu acompanhava os conselhos, fazia parte das reuniões, sem ter cargo. Na gestão do João Del Nero como presidente do Sinaenco em São Paulo, de 2003 a 2005, fui convidado para ser vice-presidente. No período, o João Del Nero lançou a campanha “Infraestrutura – Prazo de Validade Vencido“, que teve muito êxito. Corremos o Brasil para mostrar que as obras de infraestrutura careciam de manutenção. As obras eram construídas e entregues pelo poder público, e esquecidas, deixadas sem qualquer manutenção criteriosa. Coube a mim, como vice-presidente, a coordenação dessa Campanha, que deu muita visibilidade ao Sinaenco. O problema existia e começou a estimular as autoridades públicas a estabelecer um programa mínimo de manutenção ou, no mínimo, de correção dos problemas que nós mostrávamos. A partir daí, a presidente nacional, Norma Gebran Pereira, recentemente falecida, grande figura do setor, e seu vice-presidente, Antonio Moreira Salles, convidaram-me para assumir a responsabilidade de ser presidente nacional do Sinaenco. Topei e fui eleito, sendo presidente de 2006 a 2009, em duas gestões sucessivas. Em seguida, fui eleito presidente do Sinaenco em São Paulo e novamente reeleito, sendo que, no final deste ano, acaba meu mandato. Minha atuação está ligada a um trabalho que conseguimos produzir graças a um trabalho eminentemente coletivo, tanto nacional quanto regional, com o grupo de profissionais permanentes do Sindicato e com as diretorias.

Bernasconi em homenagem ao ex-governador de São Paulo, Alberto Goldman, na posse de sua gestão 2012-2013

IBRACON – QUAL É SUA VISÃO SOBRE O PAPEL DAS ENTIDADES ASSOCIATIVAS DO SETOR CONSTRUTIVO?

BERNASCONI – Seu papel tem que ser construtivo. Ter a capacidade de fazer análise crítica das situações e de propor. Tive o privilégio de ser honrado com o título de Eminente Engenheiro do Ano do Instituto de Engenharia de São Paulo, em 2010, e, no meu discurso, destaquei o exercício da cidadania, que somos substantivamente cidadãos e adjetivamente engenheiros, médicos, arquitetos, advogados, jornalistas. Temos, por um lado, privilégios de ser cidadão de um país (votar e ser votado) e, por outro, temos responsabilidades. Quando falamos de associações, falamos de coletivos, de grupos de pessoas, que podem ser adjetivamente engenheiros, advogados, médicos, OAB, Sinaenco, Instituto de Engenharia, mas sobretudo somos cidadãos, com a responsabilidade de olhar criticamente para o que está acontecendo e, naquilo que nos couber, naquilo que conhecemos mais, fazer propostas que tornem as coisas mais eficientes, mais eficazes, numa palavra, mais efetivas. O papel das associações é não perder de vista que o usuário final do sistema de metrô, do sistema viário urbano, do sistema de tratamento de água, de uma edificação, seja atendido em sua necessidade com um equipamento que cumpra sua finalidade, com qualidade, com preço adequado (não o menor preço, mas preço correto para oferecer um produto de qualidade!), e com durabilidade (que é a qualidade para durar!). Essa é a responsabilidade que temos como engenheiros e arquitetos. Assim, as associações devem trabalhar para o aprimoramento do seu setor (a boa aplicação da engenharia) e para que a sociedade possa aproveitar mais e melhor da competência do setor.

IBRACON – RETOMANDO A CAMPANHA “INFRAESTRUTURA – PRAZO DE VALIDADE VENCIDO”, QUE ALERTA INERENTE ELA TRAZ?

BERNASCONI – Sobretudo, que antes de uma boa obra, existe sempre um bom projeto. Um bom projeto que garanta a durabilidade da obra, para que possa cumprir sua finalidade com a menor manutenção possível. A construção realiza fisicamente o que foi concebido no projeto, de modo que o projeto de engenharia e arquitetura é o genoma, o DNA do empreendimento. A construção não consegue corrigir uma falha genética do projeto. Uma ótima construção de um projeto de baixa qualidade vai gerar um equipamento de baixa qualidade. Dessa forma, a campanha está ligada à sustentabilidade, que é a permanência no tempo, do ambiente construído. Fala-se muito da sustentabilidade para o ambiente natural, mas o Sinaenco estendeu o conceito para o ambiente construído. Para garantir sustentabilidade no ambiente construído, é preciso fazer as coisas corretamente, começando com um bom projeto: uma boa concepção de arquitetura e engenharia. Para garantir a sustentabilidade no ambiente construído, a engenharia consultiva entra não somente na fase de projeto, mas também na supervisão técnica e no gerenciamento da construção, bem como na gestão de operação e manutenção.

IBRACON – QUAIS OS EFEITOS DA CAMPANHA PELA MANUTENÇÃO DO AMBIENTE CONSTRUÍDO?

BERNASCONI – O efeito mais prático aconteceu em São Paulo com a assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) entre o Ministério Público de São Paulo e a Secretaria de Infraestrutura do Município de São Paulo, para as pontes e viadutos do município arrolados nos relatórios da Campanha do Sinaenco. Desta forma, a Prefeitura de São Paulo estabeleceu um programa de recuperação dessas obras. E mais: se comprometeu com um programa permanente de manutenção. Nas outras cidades, as respostas foram pontuais, para corrigir os problemas apontados. De qualquer maneira, contribuímos, com a Campanha, para trazer o tema da manutenção, da gestão de manutenção para as infraestruturas do Brasil.

Fonte Nova em 2007, estádio considerado pelo estudo do Sinaenco como pior entre os 28 avaliados

IBRACON – OUTRO ESTUDO DO SINDICATO É O ESTADO DE MANUTENÇÃO E CONDIÇÃO DOS ESTÁDIOS BRASILEIROS, FEITO EM 27 ESTÁDIOS EM 18 CIDADES. QUAIS OS PONTOS MAIS CRÍTICOS, QUE NECESSITAM DE INTERVENÇÃO, APONTADOS NESTE ESTUDO EM RELAÇÃO ÀS ESTRUTURAS DE CONCRETO?

BERNASCONI – A maioria tem problemas de falta de manutenção. Não havia problemas estruturais, até porque esses aparecem nos primeiros tempos de uso. O Brasil foi anunciado como sede da Copa do Mundo de 2014 em 30 de outubro de 2007. Fomos fazer o levantamento da situação de 27 estádios com uma equipe de engenheiros e arquitetos. Anunciamos neste estudo, espécie de relatório fotográfico e textual, um fato comum: havia falta de manutenção dos estádios! Em 1º de novembro, numa coletiva no Sinaenco, contamos a situação dos 27 estádios, apontando que nenhum deles atendia as exigências da FIFA e exortando para que fizéssemos um esforço de melhoria das arenas. Lamentavelmente, 15 dias depois, o estádio da Fonte Nova, na Bahia, apresentou o rompimento de uma das lajes da arquibancada, com a morte de sete pessoas e mais de cem feridas, por causa de corrosão da armadura, que não imaginávamos que pudesse levar ao colapso. O Bahia havia voltado para a primeira divisão, o estádio estava lotado, com 60 mil pessoas, levando ao colapso, por falta de manutenção. Em lugares como Salvador, temos o ar marinho, com sais, que iniciam um processo corrosivo das armaduras. O concreto fissura naturalmente, abre microfissuras, permitindo a penetração desses agentes agressivos. Por isso, o cobrimento da armadura, uma camada de concreto de uma polegada, deve ser bem feito, para evitar a penetração dos agentes agressivos, para proteger a armadura. Ainda por cima, temos chuva ácida: depois de um tempo de seca, o CO2, SO2, SO3, H2SO4 presentes no ar, caem com as chuvas. Além disso, as pessoas urinam nas arquibancadas, acumulando ureia e outras substâncias corrosivas. Com o tempo, as armaduras corroídas podem se romper, como no caso do Fonte Nova, fazendo despencar um pedaço de laje.

IBRACON – O SINAENCO TEM ACOMPANHADO A EVOLUÇÃO DAS OBRAS PREVISTAS PARA SEREM REALIZADAS NAS ARENAS ESPORTIVAS QUE SEDIARÃO OS JOGOS DA COPA DE 2014. OS PROBLEMAS APONTADOS NO ESTADO DE MANUTENÇÃO E CONDIÇÃO DOS ESTÁDIOS SERÃO DEVIDAMENTE SANADOS NESTES ESTÁDIOS?

BERNASCONI – Eu penso que sim! São projetos de qualidade. São obras que atendem as exigências da FIFA. As empresas construtoras são da maior competência. Então, creio que estão sendo bem feitas. Se a manutenção for adequada, não teremos a repetição dos problemas apontados. Como várias das arenas são parcerias público-privadas ou concessões (Mineirão, Fonte Nova, o Maracanã está em processo de licitação), eles devem ter boa manutenção. O operador privado, para operar aquilo terá que manter direito. Caso contrário, ele não terá sustentabilidade econômica, para pagar a outorga da concessão. Portanto, tenho confiança que serão mantidos de maneira adequada. Para os estádios públicos, espera-se que tenham a devida gestão de manutenção.

IBRACON – ALÉM DOS ESTÁDIOS, QUAIS OUTROS BENEFÍCIOS EM INFRAESTRUTURA PODEM SER GERADOS PELOS INVESTIMENTOS PARA A COPA E PARA AS OLIMPÍADAS?

BERNASCONI – Nossos aeroportos estão ruins. No ano passado, houve a privatização ou parceria público-privada de três – Viracopos, Guarulhos e Brasília, onde os grupos que assumiram começam a mostrar serviço. Acredito que eles conseguirão melhorar um pouco a situação nos aeroportos até a Copa, mas será uma melhoria precária: os módulos operacionais provisórios (MOP) são uma melhoria tópica, localizada. A melhoria real vem com a reformulação e construção de novos aeroportos, que vão demandar mais tempo. O parque de aeroportos no Brasil, se houver a privatização correta e adequada, porque o poder público não tem condições de investir e não tem quadros técnicos preparados, deve crescer em 20 anos, devido ao crescimento da economia brasileira. Por outro lado, a infraestrutura de mobilidade urbana é um grande problema. O VLT de Brasília não vai sair, nem o de Manaus, até a Copa de 2014. O VLT de Cuiabá, talvez, não fique pronto. Há doze anos, a linha 1 do Metrô de Salvador, está para sair e não sai: seus equipamentos estão embrulhados no porto. Vão fazer a linha 2 antes da linha 1, em Salvador – a linha 2 vai ligar o Aeroporto à Fonte Nova. Espero que fique pronto a tempo! Por isso, haverá necessidade de tomar decisões do tipo: declarar feriado nos dias de jogos, o que está previsto na Lei Geral da Copa, para reduzir a demanda pelo espaço viário e pelo transporte público. Pode ser que se tenha que decretar férias escolares antecipadas. A Copa do Mundo é geralmente de 12 de junho a 12 de julho. As férias escolares são em julho. Então, antecipam-se um pouco as férias escolares, diminuindo a demanda pelo espaço público, pelo espaço viário e pelo transporte público. Perdemos a oportunidade de gerar uma grande infraestrutura em nome da Copa. De qualquer maneira, as obras não entregues até a Copa, prosseguirão, constituindo-se em benefício para a população.

IBRACON – OS INVESTIMENTOS GOVERNAMENTAIS EM INFRAESTRUTURA TÊM ENCONTRADO SÉRIOS PROBLEMAS COM REAJUSTES CONTRATUAIS E PRAZOS DE EXECUÇÃO. A ELABORAÇÃO DE PROJETO EXECUTIVO COMPLETO ACABARIA COM ESSES PROBLEMAS?

BERNASCONI – Na minha opinião, sim! Porque o projeto executivo leva o projeto aos seus últimos detalhes. Com isso, tem-se quantificação e especificação completa de materiais e serviços. Terão sido feitos previamente todos os estudos, levantamentos topográficos, estudos ambientais adequados, todas as sondagens de reconhecimento do subsolo para as soluções completas de fundação. Então, não tem por onde escapar! As quantidades e os preços aplicados às unidades corretas levam a um orçamento correto, não advindo surpresas ao longo do processo. Os países desenvolvidos gastam um bom tempo planejando e projetando para construir de uma vez, rapidamente, com todo o projeto na mão. As surpresas serão apenas por conta de Deus: chuvas e ventos fortes, falha no subsolo etc. Em suma: o que for possível prever, tem que ser previsto no projeto executivo. Sem o projeto executivo, é como entrar numa cirurgia sem uma ressonância magnética, um exame radiológico, instrumentos que permitem fazer o diagnóstico por imagem, para saber onde intervir. Quando não se tem isso, arrisca-se: abre-se o abdômen do paciente para descobrir o que tem que ser feito. Então, o projeto é isso: ele permite antecipar todas essas coisas. A construção é a materialização física de um projeto: quanto mais completo, com custos, prazos e qualidade, mais sob controle é a construção.

IBRACON – A LEI DE LICITAÇÕES 8666 É ADEQUADA PARA CONTRATAÇÃO DE PROJETOS DE ARQUITETURA E ENGENHARIA?

BERNASCONI – Pode ser aperfeiçoada, mas atende. Seu artigo sétimo diz que não se pode começar a obra e a obra não será feita sem que o projeto executivo de cada um dos itens esteja pronto. No caso de um prédio público, se ainda não se tem o projeto executivo do andar-tipo, pode-se começar a construção de sua fundação, caso o projeto executivo esteja completo. Enquanto se está fazendo a fundação, completam-se os projetos da parte superior de um edifício. A 8666 prevê isso. O Regime Diferenciado de Contratação (RDC) atropela tudo, valorizando fazer uma licitação em prazo curto e contrato pelo menor preço. Isso é receita para o desastre: resolve-se construir uma estrada com a contratação das máquinas! Não é assim que se faz uma estrada, mas planejando cinco anos antes. O problema do Brasil é não fazer planejamento. Tem que planejar, definir o que será feito. Tem que fazer os projetos completos, para, então, começar a obra. Com planejamento, têm-se obras públicas sob controle.

IBRACON – QUAIS SÃO OS REQUISITOS FUNDAMENTAIS DE UM BOM PROJETO ESTRUTURAL?

BERNASCONI – Antes de mais nada, o dimensionamento adequado e o conhecimento completo de onde a obra vai ser implantada. Precisa ter conhecimento do sítio de implantação e um projeto bem dimensionado. Quem faz o projeto estrutural estabelece o compromisso entre segurança e economicidade. No Japão, projeta-se levando-se em conta os terremotos, levando em conta os grandes esforços horizontais. Mas, no Brasil, não! O projeto depende das características do sítio onde a obra será implantada. A Resistência dos materiais é uma disciplina que examina essas coisas: sabe-se quanto que um material resiste e, em função do esforço solicitante, se faz o dimensionamento adequado. Com que folga? Com a segurança normalizada de 1,6 até 2. Não se pode fazer a obra a qualquer preço. É preciso conciliar a qualidade com menor preço para atingir aquela qualidade e desempenho. Essa é a grande característica do projeto estrutural.

IBRACON – COMO SE EXPLICA A PREDOMINÂNCIA DO CONCRETO NA MAIORIA DOS CANTEIROS DE OBRAS ESPALHADOS PELO BRASIL?

BERNASCONI – Porque com o concreto é mais fácil de fazer! Vira-se o concreto na obra. Hoje, com as concreteiras, o concreto é entregue pronto na obra nas condições especificadas de tempo e de qualidade, de traço e tudo o mais. Além disso, o concreto é moldável: o Niemeyer, o Ruy Ohtake e outros grandes arquitetos mostraram o que se pode fazer com o concreto. Ele tem plasticidade: dá-se a forma que se quiser, desde que se tenha um dimensionamento adequado. Por outro lado, uma estrutura de concreto bem feita e bem mantida não tem limite de durabilidade.

IBRACON – QUAL É SUA VISÃO DA INDUSTRIALIZAÇÃO NA CONSTRUÇÃO CIVIL?

BERNASCONI – Para a construção industrializada, precisa-se ter:

  1. Primeiro: continuidade dos programas para permitir a quem investir em equipamentos ter a certeza de que vai conseguir amortizá-los.
  2. Segundo: o projeto completo é fundamental na construção industrializada, porque esta consiste de encaixe de peças pré-fabricadas – se tiver alguma coisa fora de nível, perde-se a peça; o jogo de montar implica uma construção muito bem feita a partir de projeto muito bem detalhado, muito bem fiscalizado e controlado a cada momento.

A palavra-chave no país hoje quando se pensa em obras de infraestrutura é planejamento, ou seja, pensar antes – quem pensa antes, executa melhor. A construção pré-fabricada exige um plano de obra. Não adianta a peça chegar antes no canteiro, porque ela vai atrapalhar, nem chegar depois, porque, aí, perdeu-se o prazo. Tudo tem que ser muito bem planejado. É perfeitamente possível. Há muitas empresas no Brasil que trabalham assim hoje. Fazendo boa engenharia e tendo continuidade de investimento, desenvolve-se a construção pré-fabricada.

IBRACON – FORA DO TRABALHO, O QUE VOCÊ GOSTA DE FAZER?

BERNASCONI – Gosto muito de ler. Sou um leitor ávido. Gosto também de atividade física. Já joguei futebol, basquete, tênis. Hoje, na minha idade, eu ando e faço academia.

Tradição no Desenvolvimento de Projetos, Gerenciamentos, Fiscalização e Supervisão de Empreendimentos

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